terça-feira, 3 de março de 2015

Norton e o mundo dos duendes - 1


Fui batizado de Norton quando tinha umas 100 luas, eu acho. Pelo menos era o que minha mãe dizia antes de fugir com um cavaleiro errante. Menos mal, odiava o modo como ela me tratava e o jeito que ela continuamente mantinha relações com qualquer duende ou criatura viva que prometesse alguma aventura. Vivo em Diagoras, reino dos pequenos duendes Lamuris do norte. Moro desde que nasci, num velho celeiro cheio de pulgas e carrapatos e feno, muito feno; propriedade do monsenhor Jon. Que fora patrão do pai do pai do pai do tataravô do meu pai... bem, já deu para ter uma ideia. Meu pai faleceu a 40 voltas de luas, e morreu sob a tutela do velho Jon. Que logo veio a se tornar meu patrão. O velho provavelmente me ultrapassaria também.

Um belo dia de sol, o vento roçava no meu rosto, como as delicadas mãos de uma donzela –não que eu já tenha tido uma... andei de um lado para o outro do distrito das pulgas, trocando, vendendo e comprando uma infinidade de produtos para o chefe. Voltei, apreciando o caminho como sempre fazia, os verdes prados e campinas do sul de Diagoras, assobiando uma canção qualquer sobre um velho que mata um dragão, que ninguém lembra mais quem é, até vi um negócio negro se mexendo lá longe, numa colina.

Pensei logo que era uma abominação, uma aparição, coisa das trevas mesmo sabe? Mas ouvi um gemido, uma voz feminina. Depois de alguma hesitação, decidi que aquele medo todo era bobo e que já fazia algum tempo nenhuma bruxa ou fada aparecia no vale, fui até lá. O negócio preto acaba sendo na verdade, um véu, cheio de estrelas douradas de todos os tamanhos decoradas nele e sob ele havia uma pequenina e fraca garotinha. Me senti besta. Tamanho duende, com medo de assombração. Bufei.
A garotinha me agarrou e eu quase me caguei de medo, sinhô. Ô se caguei. Ela gemeu novamente e fez um gesto pra eu me aproximar. Fiz o que foi pedido, meio com medo, meio aterrorizado.
-Pegue esta correspondência e a varinha, vá para a cidade e encontre o grão mestre...
Um suspiro e ela não estava mais neste plano.
-Grão mestre? Quem? Mulher, não disse coisa com coisa!
Mas já era tarde.
Peguei a carta e o desenho no selo de sangue se moveu, um pequeno dragão vermelho com olhos escarlates, e a tal da varinha que ela havia dito, girei-a no ar. Tente entender, só via os magos durante os desfiles e comemorações da cidade, aquilo era algo novo para mim. Parecia um galho velho, meio apodrecido e meio conservado. Comecei a brincar com ela, imitando o que os magos faziam durante as paradas e sem querer acabei disparando um raio que destruiu uma das arvores alguns metros à frente. Fiquei um pouco assustado, um pouco excitado. Tratei logo de guardar a capa da moça dentro de uma das minhas bolsas e junto com ela a varinha e a carta.
Corri para casa, deixei os lucros e encomendas do patrão e arrumei uma desculpa esfarrapada para voltar a cidade:
-Deixei sem querer uma encomenda, tenho que voltar para buscar...
-Moleque maldito, quando é bobagem você se lembra muito bem. – Tomei um safanão na cabeça. – Vá e volte logo, sabe que preciso de um banho quente.

-Sim, senhor.

2 comentários:

Unknown disse...

Fascinante

Unknown disse...

vamos trocar e-mail
pessoa30@hotmail.com

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