Fui batizado de Norton quando tinha umas 100 luas, eu acho.
Pelo menos era o que minha mãe dizia antes de fugir com um cavaleiro errante.
Menos mal, odiava o modo como ela me tratava e o jeito que ela continuamente
mantinha relações com qualquer duende ou criatura viva que prometesse alguma
aventura. Vivo em Diagoras, reino dos pequenos duendes Lamuris do norte. Moro
desde que nasci, num velho celeiro cheio de pulgas e carrapatos e feno, muito
feno; propriedade do monsenhor Jon. Que fora patrão do pai do pai do pai do
tataravô do meu pai... bem, já deu para ter uma ideia. Meu pai faleceu a 40 voltas de
luas, e morreu sob a tutela do velho Jon. Que logo veio a se tornar meu patrão. O velho provavelmente me ultrapassaria também.
Um belo dia de sol, o vento roçava no meu rosto, como as
delicadas mãos de uma donzela –não que eu já tenha tido uma... andei de um lado
para o outro do distrito das pulgas, trocando, vendendo e comprando uma
infinidade de produtos para o chefe. Voltei, apreciando o caminho como sempre
fazia, os verdes prados e campinas do sul de Diagoras, assobiando uma canção
qualquer sobre um velho que mata um dragão, que ninguém lembra mais quem é, até vi um negócio negro se mexendo lá longe, numa colina.
Pensei logo que era uma abominação, uma aparição, coisa das
trevas mesmo sabe? Mas ouvi um gemido, uma voz feminina. Depois de alguma
hesitação, decidi que aquele medo todo era bobo e que já fazia algum tempo
nenhuma bruxa ou fada aparecia no vale, fui até lá. O negócio preto acaba sendo
na verdade, um véu, cheio de estrelas douradas de todos os tamanhos decoradas
nele e sob ele havia uma pequenina e fraca garotinha. Me senti besta. Tamanho
duende, com medo de assombração. Bufei.
A garotinha me agarrou e eu quase me caguei de medo, sinhô.
Ô se caguei. Ela gemeu novamente e fez um gesto pra eu me aproximar. Fiz o que
foi pedido, meio com medo, meio aterrorizado.
-Pegue esta correspondência e a varinha, vá para a cidade e
encontre o grão mestre...
Um suspiro e ela não estava mais neste plano.
-Grão mestre? Quem? Mulher, não disse coisa com coisa!
Mas já era tarde.
Peguei a carta e o desenho no selo de sangue se moveu, um pequeno
dragão vermelho com olhos escarlates, e a tal da varinha que ela havia dito,
girei-a no ar. Tente entender, só via os magos durante os desfiles e
comemorações da cidade, aquilo era algo novo para mim. Parecia um galho velho,
meio apodrecido e meio conservado. Comecei a brincar com ela, imitando o que os
magos faziam durante as paradas e sem querer acabei disparando um raio que
destruiu uma das arvores alguns metros à frente. Fiquei um pouco assustado, um pouco excitado. Tratei logo de guardar a capa da moça dentro de
uma das minhas bolsas e junto com ela a varinha e a carta.
Corri para casa, deixei os lucros e encomendas do patrão e
arrumei uma desculpa esfarrapada para voltar a cidade:
-Deixei sem querer uma encomenda, tenho que voltar para
buscar...
-Moleque maldito, quando é bobagem você se lembra muito bem.
– Tomei um safanão na cabeça. – Vá e volte logo, sabe que preciso de um banho
quente.
-Sim, senhor.

2 comentários:
Fascinante
vamos trocar e-mail
pessoa30@hotmail.com
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