terça-feira, 6 de maio de 2014

Suicídio interior




Não se mate dentro de mim, se mate lá fora onde é mais fácil, onde ninguém liga, ninguém se importa; mate-se onde é menos complicado retornar, onde sua certidão de óbito não vigora.
Se mate lá fora.
Cometa suicídio com a porta fechada ou se jogue de uma sacada. Ponha um cordame em volta do pescoço e chute o balde, seus risos e suas caretas ainda serão lembrados; se atire debaixo de um trem, pule de bungee jump sem corda, só não se mate dentro de mim.
Se mate lá fora.
Porquê morrer em mim não tem volta, não tem ressurreição ao terceiro dia, nem milagre nem choro e nem vela, nem velório, nem luto. Morrer em mim não tem volta.
Não vá embora.
Não se massacre aqui dentro, porque não tem santo que te ajude e nem demônio que seja convocado para fazer trato, para te fazer os louros de minha memória, ou alienígena que te faça voltar a tona.

Se mate lá fora.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Luís - Continuação



Invariavelmente, é claro, seus medos e você entram em combate.

Anne era o nome dela. É o nome dela, já que não está morta, mesmo que ele tente se convencer disso todas as noites.

O sol irrompendo o centro do horizonte a sua frente o fez se lembrar do sorriso meigo que ela lhe dava às vezes e de como os olhos dela pareciam sussurrar coisas que ele não conseguia decifrar, Luís fechou os olhos e acolheu aquela lembrança. Fechou os olhos e acolheu as incertezas e a dor. Sussurrou o nome dela na brisa e abriu os olhos novamente. O calor que lhe encheu, não teve certeza se provinha do astro errante ou de si mesmo, não que isso importasse. Em uma hora teria que enfrentar novamente o campo de batalha. Usar um sorriso e fazer parecer que ele não estava quebrado.

Tomou banho, metódico e calmo, aproveitou-se de si mesmo e das lembranças. Saiu de lá renovado, como se tivesse sido abençoado por uma ninfa. Enxugou-se vestiu as roupas intimas, seguidas de suas calças sociais que ao serem abotoadas pareciam mais pesadas do que realmente eram. Ele respirou. Uma, duas, três vezes. Perdeu a conta. Quando olhou no espelho novamente, colocou a camisa que serviu como uma malha, o colete e por fim, a casaca do terno. Ajeitou as mangas e desamarrotou, imaginando aquilo como a couraça de ferro que o protegeria pelo resto do dia. Então a gravata se fez de elmo.

Organizou os cabelos, ou pelo menos tentou. Até que não teve mais paciência e jogou tudo para cima. Resmungando um foda-se. Escovou os dentes e calçou os sapatos.

Pegou a maleta ao lado da mesa do computador, junto de um capote no closet e marchou para o que seria mais um dia de guerra.