terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Luís - 3 cont.



Andou duas quadras, observando como a cidade se curvava em sombras sob o sol. A temperatura ainda era baixa apesar de tudo. Ajudou uma senhora abarrotada de sacolas de compras a sair de uma loja mantendo a porta aberta enquanto a velha agradecia exasperada. Ele odiava o modo como às pessoas recebiam a gentileza, como se fosse um estigma e não uma dádiva.

Deixou isso para trás, continuou até chegar à estação de metrô, entrou no primeiro vagão que iria para o bairro nobre onde trabalhava. Odiava a sensação de que a cidade o engolia enquanto ele estava ali embaixo, a sensação esmagadora de que estava dentro de um monstro enorme que a qualquer hora poderia se sacudir e tudo estaria acabado. Apertava a mão agarrada à maleta, tal como se ela fosse sua espada, afrouxava o colarinho e rezava em silêncio.

Luís, o bravo guerreiro. Sua vozinha repetia como um mantra.

E logo ele via a luz novamente e seus nervos relaxavam para serem congelados pela baixa temperatura outra vez. O frio estava pior e mesmo assim ele se recusou a vestir o capote, já que estaria um forno naquele inferno de trabalho. Ele aguentaria o frio. O que ele não aguentaria seria o calor.


Aquele calor agonizante que o sorriso poderia lhe trazer, chamas que queimariam sua pele e pinicariam sua garganta quando a visse. Passou pela segurança e entrou no elevador, aquela sem duvida era a garganta do inferno. Por onde todo o mal fluía, por onde toda a dor era transportada.

Apertou ainda mais a alça da maleta e sorriu para as pessoas ao seu redor, dentro daquela saliva de aço e quando fora finalmente cuspido, como num flerte demoníaco olhou para o contador de andares e sorriu diabólico. Vencedor.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Desamor







Todos os dias Clarice passa por Mario, ele sorri, ela sorri de volta. Um belo dia estão casados, dois filhos, teto quente sobre as cabeças, cama fria. Ele ausente, no trabalho. Sempre muito ocupado. Ela sempre se aventurando nas loucuras de uma frigida dona de casa. Eles sempre discutem os hábitos e os vícios do relacionamento. O modo como interagem. A falta de sexo. Nunca chegam num consenso. E toda maldita vez falo para o Mário largar essa mulher.

Dessa vez não foi diferente. Ele chegou jogando a mala num canto, desafrouxando a gravata, fazendo um sonoro rosnado cansado. Nem sentia vontade de voltar para casa, como em todas as outras noites. E como sempre, era eu quem tinha que ouvir mais um desabafo:

-Hoje ela torrou tudo, estourou mais um cartão...

-Essa tua mulher... – Gemi. Era tudo o que poderia dizer sem me arriscar demais.

-Porra. Caralho. Será que ela não tem a mínima consideração? Me mato de trabalhar para pagar as contas e tudo que ela sabe fazer é me criar problemas!

-Não sei. O que te dizer... - Era perigoso ir de encontro à sua opinião, ele sempre fora muito genioso. O melhor a fazer era massagear-lhe os ombros e fingir que eu me importava de verdade com o que ele pensava acerca dela.

Guiei minhas mãos até as suas costas e tirei-lhe a camisa, o leve toque dos meus dedos era para ele um calmante, uma espécie de fuga da realidade, ou nas palavras dele: “a volta para um tempo que não devia ter passado.”.

- Eu sei que você prefere se manter neutra. Não dá mesmo para se envolver com aquela peste, se você por acaso ousasse opinar sobre ela, acho que ia acabar se contaminando com toda a chatice que ela tem. Mantenha-se assim. Eu preciso de você para poder sair de toda essa bosta.

- Mas você acha que eu vou te esperar a vida inteira, ou pior, que não seremos descobertos por tanto tempo?

Ele ficou lívido, sabia que uma hora ou outra esse dia ia chegar, eu não o forçaria jamais a escolher entre eu ou ela, não era isso que eu queria, também gostava de ser livre, tanto quanto gostava de ser dele, mas eu o conhecia, e sabia que uma hora ou outra seríamos descobertos, ele tinha mania de jogar coisas na cara quando estava irritado e talvez me usasse para machucar a esposa dentro em breve.

Era um problema e uma solução ser dele. E com aquele temperamento irascível, com certeza o que era apenas um problema lá longe – a vida conjugal dele – se tornaria também um problema próximo, tão perto que poderia me machucar.

-Lidaremos com isso quando acontecer... – Foi tudo o que disse.

-Mario... – Lembrei de todas as vezes que o pensamento ricocheteou em minha mente. – É eminente... Sua esposa, ela não é burra... E a essa altura já deve ter desconfiado...

-Pare, por favor?

-Mario... – Sabia que era melhor não insistir, mesmo assim, a dúvida ainda permanecia.

-Venho aqui todas as noites para relaxar e não para ter que ouvir e passar o mesmo que já tenho em casa!

-O que estou tentando te dizer é que talvez em breve você não tenha mais casa.

O tapa me deixou aturdida.

-Vocês mulheres são todas iguais. Sempre querendo mandar na gente, sempre querendo nos dizer o que fazer, o que sentir o que pensar. Mas que merda! Será que não posso ter um pingo de paz?

-Me bater vai resolver algo? – Perguntei áspera ainda segurando o ardor no rosto.

Ele se afastou da cama, mãos fechadas, queixo rijo.

-Porque é sempre assim que resolve seus problemas Mario. De forma impetuosa, sem pensar, sem entender, sem calcular. É por isso que sua vida é a bosta que é! Porque você não consegue ver o que vem lá na curva, porque não quer enxergar que a vida não é resumida aos próximos 10 segundos.

Senti o ar deslizar em direção ao meu rosto, com a impetuosidade do soco que ele deu na parede, numa linha paralela à minha cabeça. Era sempre assim, ele me procurava para transar, mas sabia que iria ouvir verdades, e não me lembro quando, eu o agredi pela primeira vez, abrindo o precedente para o que acabara de ocorrer. Ele nunca explodia de verdade, não comigo, mas às vezes saía do sério e expressava isso com a ebulição de testosterona que eu acabara de presenciar.

Depois veio o beijo, os seus lábios bem desenhados colados em minha boca, seus dentes ávidos, com manchas de tabaco mordendo o canto da minha boca. Agora a festa ia realmente começar, e suas mãos, uma delas inchada do soco na parede, tocaram minhas costas e meus seios, na mesma velocidade com a qual sua língua nadava em minha boca.

-Eu resolvo meus problemas da única forma que sei. E o meu problema com você, é que estou morto de tesão nesse momento. Sabe? Estou com tanto tesão que isso está me deixando nervoso e animalesco.

Eu pude sentir seu membro endurecer embaixo da calça, e foi pra lá que minha mão se direcionou, eu adorava aquilo, adorava o sexo da forma selvagem como fazíamos, mas não podia deixar a oportunidade passar, e, como das outras vezes, comecei o nosso diálogo durante a transa.

-Você precisa superar esses seus problemas emocionais cara. Eu posso morrer qualquer dia desses e você não vai ter mais com quem gozar. Se você não é capaz de tomar uma decisão, permita que ela tome.

-Verdade. Talvez eu não seja mesmo capaz de tomar essa decisão... – Gemeu um pouco e se enfiou ainda mais. – Mas não posso. Não... Não posso.

-Mario... – Reiniciei naquele tom de censura. Como era difícil por algum bom senso na cabeça dele.

-Desgraçada... – Ele puxou meu cabelo, mordeu o lóbulo da minha orelha e lambeu meu pescoço. – Não dá para termos essa conversa outra hora?

-Qualquer hora é hora.

-Mulher...

-Mario, querido... – Por um instante também tive que gemer, a necessidade me empurrava para longe. – Preste atenção, Clarice é com quem está construindo o futuro, é para ela que você precisa voltar todas as noites. É dela que você tem que se saciar, não de mim. Eu sou só a outra, aquela quem vai te esquecer. Clarice não. Seu nome está estampado no dela, nos filhos dela, na casa dela, na vida dela.

-Não posso... – E foi mais fundo, outra vez.

-Pode sim! –Gritei, meio enlouquecida, meio puta. – Só está adiando o inevitável.

Ele começou a ir com mais violência, do jeito que eu gostava. O bom desses diálogos, é que, concentrado nos insultos, ele esquecia um pouco do próprio prazer para pensar nas respostas e assim aguentava mais. Depois que descobri a fórmula mágica, toda vez que transávamos era assim, senão ele gozava rápido e ficávamos fumando.

-Não posso! Eu não quero ser um pai de família, não quero construir mais nada. Não quero arriscar a brincar de ser feliz, pra ela descobrir depois de uns anos o que tivemos, e ficar puta. Ela emputece com tudo! Isso me enche! - Os movimentos de sua pélvis estavam ficando cada vez mais cadenciados, era hora de trocar de posição, senão o infeliz gozava e me deixava à mercê do meu dedo.

Puxei o braço de apoio dele, e fiz com que se desequilibrasse. Girei meu corpo sem deixar que nos desencaixássemos, e agora eu estava por cima.

-Se você tem medo do resultado da vida, então não merece viver. Viver é arriscar, e você só está se protegendo. Nenhuma guerra é ganha se os soldados ficam definhando nas trincheiras. Você precisa sair da sua zona de conforto.

Nessa hora, sua cara era um misto de tristeza e languidez. Eu sabia que ele ia durar muito mais, meu coração se importava em magoá-lo, mas meu tesão não estava nem aí. Eu iria continuar.

- Eu não aguento mais ver tanta coisa dar errado. Todos os relacionamentos que vi, arruinaram-se.

-Faz parte da vida, se decepcionar, ficar triste, se perder, se encontrar, se foder, foder os outros. Para de ser covarde, porra! – Cavalguei com mais intensidade. - Para de pensar que tudo tem que ser perfeito, que tem que dar certo de primeira. Que tem que manter sua vida uma merda para não desacreditar as expectativas alheias. É por isso que é tão depressivo!

-Eu sei que tenho que mudar, mas mudar implica em fazer um esforço descomunal e eu não quero fazer isso, pois sei que...

-Não goza ainda! – Mudei o ritmo. – Entendo que a monotonia do seu casamento é aconchegante, que não há nada de arriscado no papel que você desenvolve agora, mas CARALHO! – Gritei de novo e passei as unhas pelo peito de Mario. – É a sua vida, ela tá passando e depois é você que vai ser um velho cheio de arrependimentos, mágoas e lembranças vazias.

-Eu sei...

-Faz acontecer, Mario!

-Tenta ver o meu lado. Sei que é em parte minha culpa que o relacionamento com Clarisse tenha caído no marasmo, sei também que os problemas em casa, está tudo relacionado comigo, com a minha fuga constante. Mas ser pai... Ser pai, marido, chefe da casa, subordinado no trabalho. Gerir tudo e todos, que dependem de mim... Principalmente a Clarice, ela torna tudo tão pior... Nada nunca é o bastante e mesmo que eu faça tudo certo, ela ainda fica na defensiva, como se eu a ofendesse. Não a entendo!

Ele não entendia mesmo, tinha um grave problema de ego que ora o fazia diminuir-se e achar que estava sendo injustiçado pelo mundo, e ora o fazia engrandecer a si mesmo e achar que o mundo era habitado por babacas.

-Ela é mulher. Ela tende a ver tudo dos piores ângulos. Todas somos assim, especialmente aquelas que buscam estabelecer-se com um cara. E você, bem... Aaaah... Você.... Você não é o tipo perfeito, e caiu na besteira de deixar ela saber disso.

-Como assim? Aah... Ahhhm... - Ele estava quase gozando, outra troca de posições.

-Mario, querido. Nunca se confessa uma traição. Nem sob tortura. Nós mulheres iremos querer saber a qualquer custo, nós iremos provar. Mas nunca, jamais, iremos querer ter a certeza. É da nossa natureza... Ouvir da própria boca... Booocaaaa.... Ouvir do próprio homem que ele a traiu, é simplesmente destruidor.

Completo imbecil que era, Mario havia contado outrora que traíra Clarice. A relação a partir dali, havia virado um inferno. Sorte que não havia sido comigo, não ainda.

-Isso foi realmente foda. - Agora era hora de recuperar o ânimo. Ele estava começando a se desinteressar da transa para mergulhar nos pensamentos que eu estive incutindo em sua cabeça.

-É. – Murmurei, meio feliz, meio amargurada. – Seja como for, no momento em que Clarice descobrir o que estamos fazendo...

-E se ela não descobrir?

-Aquele ditado da mentira ter perna curta não é uma anedota de anão, Mario. É real. Depois disso a porra fica ainda mais séria. Já pensou como ela vai reagir quando souber? Se vai te pedir divórcio? Como você ficaria arrasado? Porque querendo ou não, ela vai tirar tudo de você, até as coisas que mais ama.

-Tipo o que? O carro? A casa?

-Tipo a constatação de que você poderia ter trabalhado a relação de vocês e ter feito dar certo. Que apesar de todos os erros, de ser o canalha que você é, poderia ter dado uma chance para o casamento de vocês. Poderia ter tornado essa ruína num monte de ouro. Poderia ter visto seus filhos crescerem para se tornarem adultos melhores do que você. Poderia ser uma pessoa de verdade e não um projeto de antítese humana.

Não sei como sequer as palavras se formaram na minha cabeça, mas sabia que precisava dizê-las:

-Essa foi a última vez, Mario.

-Você sempre diz isso.

-Mas dessa vez falo sério.

-Também era da última vez.

-Aprendo com os meus erros, diferente de você. – Virei de lado e pesquei um cigarrinho no criado mudo, acendi e tomei um trago. – E é exatamente por esse motivo que você está casado pela segunda vez, com uma mulher que não ama, vivendo de um jeito que detesta, trabalhando num emprego que odeia, para sustentar um estilo de vida que não suporta. Porque não aprende com seus erros, não segue em frente.

-Da última vez...

-Da última vez eu estava triste, desiludida, desmembrada. Carlos tinha me deixado na merda. Mas eu não vou deixar você fazer o mesmo comigo.

-Eu jamais...

-Faria isso comigo? Da mesma forma que está fazendo com a sua mulher? Que enche a boca para falar que ama? Que bate no peito depois de dizer que é a mãe dos seus filhos? Me poupe. – Traguei novamente. – Se a amasse mesmo, não estaria aqui comigo agora. E digo isso não por achar que amor é monogamia e sim, entrega. E você nunca se entregou para ela, Mario. Nem por um segundo.



Conto escrito em parceria com Fernando Serra, do Withoutlove

sábado, 20 de dezembro de 2014

A porta



Queria ir, morri de vontade, mas mesmo assim, não fui. Ela estava lá, me esperando. Sorridente. Seus olhos, duas opalas distintas e brilhantes. Não havia motivos para dar meia volta, mesmo assim o fiz.
-Porque? – Ela perguntou. Nenhuma maldade na voz, apenas curiosidade.
Virei para lhe dar um pequeno vislumbre da minha decepção. As opalas, já não brilharam tanto.
-Fiz algo?
-Não sei.  Mas deixe de pensar assim, a vida não tem motivos ou consequências como todo mundo parece que adora acreditar. As coisas simplesmente acontecem.
-De alguma forma sei que você quer vir.
-Quero. Adoraria ir.
-Então porque não vem?
-Porque iria? – Fechei os olhos por um breve segundo.
-Seu mundo ai, essa coisa cinzenta e monstruosa, cheia de crueldade; para esse mundo tanto faz se você está nele ou não. Venha comigo.
-Tem razão, o mundo não me quer. Mas porque o deixaria? Quem me garante que no momento que atravessar esta porta, o seu mundo não se torne tão cinza e negligente quanto o meu?
-Eu garanto.
-Com que direito? Foi você quem criou esse mundo? Quem o moldou? Quem deu vida as suas leis e a sua essência? – Suspirei.
-Vivo nele, sei como funciona.
-Se vive nele é criatura dele e não o contrário. Assim como ele, você também pode mudar. Sendo assim, não pode garantir que o mundo não vai mudar, porque você mesma pode mudar e nem se dar conta.
-Me magoa dizendo isso.
-É para o seu próprio bem.
-É mesmo? Porque me parece egoísta.
-Egoísta?
-Sim... De todas as coisas, esperava medo, não egoísmo de você.
-Porque diz isso?
-Porque não quer passar por esta porta apenas porque sente que se o fizer irá se machucar.
-Pelo contrário.
-Como é?
-Isso mesmo. Não passo por essa porta porque se o fizer, não existem garantias de que você ficará bem.
-Mentira.
-Pense o que quiser.
-Está sendo egoísta.
-Mesmo? Acha que me importo com suas mudanças? Me importo é com as minhas.
-Tem medo de virar algo pior do que já é?
-Tenho medo é de me tornar algo tão bom que já nem consiga estar contigo.
Ficou sem palavras, deixei-nos em silencio enquanto ela ponderava. A cada minuto que passava, sua feição ficava cada vez mais aflita.
-Bom e mau, bem e mal, nada disso existe. – Falei por fim. – Não existem coisas assim, em nenhum mundo.
-Você também disse que não existem motivos e nem consequências.
-Se tirar os rótulos e ver que tudo não passam de conclusões aleatórias elaboradas por acidentes aleatórios, que é exatamente o que são as coisas da vida... Vai ver que estou certa. Poderia não ser eu aqui, poderia ser um outro espermatozoide... As decisões desse esperma poderiam ser totalmente diferentes das minhas, talvez ele ou ela nunca tivesse te conhecido, nem se interessado por uma porta que ninguém mais via... Talvez essa mesma pessoa não fosse retardada mental, subjugada por uma cama...
-Falando assim... Me deixa triste.
-A verdade é triste.
-Minta para mim.
-Não dá.
-Porque?
-Porque? Você não vê?
-Não.
-Isso tudo, é um milagre. O simples fato de estarmos conversando em si, de termos nos conhecido... é um grande e misterioso milagre.
Voltou a sorrir, depois um pensamento cruzou-lhe a mente e o sorriso esvaneceu.
-A porta vai fechar.
-Eu sei.
-Venha comigo.
-E se as coisas mudarem?
-Lidaremos com os acidentes aleatórios depois que eles acontecerem.
-E se eu mudar?
-Nunca vou deixar que isso aconteça.
-Promete?
-Não.
-Não?
-Não posso prometer coisas que estão fora do meu controle.
Dito isto, ponderei. Ela por fim havia sido muito mais esperta que eu de um jeito estupido. Sorri. Pegou minha mão e entrelaçou seus pequenos dedinhos nos meus.
-Não tenha medo, o mundo do outro lado é colorido. Cheio de coisas inestimáveis. Cheio de amor.
-Não ligo para o amor.
-E quem liga?!
-Não sei, ainda não me apresentaram alguém que se importasse.
-No seu mundo, ninguém liga para o amor. No nosso, todo mundo se importa.
-Não consigo definir se isso é bom ou ruim.
-Quem foi que disse que não existem bem ou mal?!
-Me pegou nessa.
-Não existe bem ou mal no seu mundo, no meu, eles são bem definidos.
-É mesmo?
-Sim. Um dragão mata uma pessoa? Bom. Uma pessoa mata um dragão? Ruim, muito ruim, anos de azar.
-As definições do seu mundo são intrigantes.
-Melhor do que nada.
-De fato.
-Mas e se eu mudar?
-Se for para ruim, não tem problema, nós vamos trabalhar isso.
-E se eu ficar bem?
-Então a gente vê.
-A gente vê? Essa é sua resposta?
-Bom, não tenho resposta para tudo, muito menos para a sua esquizofrenia. Então... Vamos passar pela porta?
Tomei um pulmão inteiro de respiração, caminhei ao seu lado. Ela abriu a porta.
-Antes de ir. Me diga. Algum dia, vou acordar?
-Minha resposta afeta sua decisão?
-Não.
-Então, não. Passando esta porta, nunca mais vai acordar.
-É uma viagem sem volta...
-Precisamente.
-Vou me arrepender?
-Nunca.
-É uma terra que vale a pena ser conhecida?
-Cada palmo dela.
-Vamos nos divertir?
-Como os meninos perdidos daquele livro... Como era mesmo o nome?
-Peter Pan.
-Sim, isso mesmo. Iremos nos divertir para sempre.
-E quanto ao amor, não falou muito dele, como ele é no seu mundo?

-O amor pode esperar, querida.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Suicídio interior




Não se mate dentro de mim, se mate lá fora onde é mais fácil, onde ninguém liga, ninguém se importa; mate-se onde é menos complicado retornar, onde sua certidão de óbito não vigora.
Se mate lá fora.
Cometa suicídio com a porta fechada ou se jogue de uma sacada. Ponha um cordame em volta do pescoço e chute o balde, seus risos e suas caretas ainda serão lembrados; se atire debaixo de um trem, pule de bungee jump sem corda, só não se mate dentro de mim.
Se mate lá fora.
Porquê morrer em mim não tem volta, não tem ressurreição ao terceiro dia, nem milagre nem choro e nem vela, nem velório, nem luto. Morrer em mim não tem volta.
Não vá embora.
Não se massacre aqui dentro, porque não tem santo que te ajude e nem demônio que seja convocado para fazer trato, para te fazer os louros de minha memória, ou alienígena que te faça voltar a tona.

Se mate lá fora.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Luís - Continuação



Invariavelmente, é claro, seus medos e você entram em combate.

Anne era o nome dela. É o nome dela, já que não está morta, mesmo que ele tente se convencer disso todas as noites.

O sol irrompendo o centro do horizonte a sua frente o fez se lembrar do sorriso meigo que ela lhe dava às vezes e de como os olhos dela pareciam sussurrar coisas que ele não conseguia decifrar, Luís fechou os olhos e acolheu aquela lembrança. Fechou os olhos e acolheu as incertezas e a dor. Sussurrou o nome dela na brisa e abriu os olhos novamente. O calor que lhe encheu, não teve certeza se provinha do astro errante ou de si mesmo, não que isso importasse. Em uma hora teria que enfrentar novamente o campo de batalha. Usar um sorriso e fazer parecer que ele não estava quebrado.

Tomou banho, metódico e calmo, aproveitou-se de si mesmo e das lembranças. Saiu de lá renovado, como se tivesse sido abençoado por uma ninfa. Enxugou-se vestiu as roupas intimas, seguidas de suas calças sociais que ao serem abotoadas pareciam mais pesadas do que realmente eram. Ele respirou. Uma, duas, três vezes. Perdeu a conta. Quando olhou no espelho novamente, colocou a camisa que serviu como uma malha, o colete e por fim, a casaca do terno. Ajeitou as mangas e desamarrotou, imaginando aquilo como a couraça de ferro que o protegeria pelo resto do dia. Então a gravata se fez de elmo.

Organizou os cabelos, ou pelo menos tentou. Até que não teve mais paciência e jogou tudo para cima. Resmungando um foda-se. Escovou os dentes e calçou os sapatos.

Pegou a maleta ao lado da mesa do computador, junto de um capote no closet e marchou para o que seria mais um dia de guerra.