domingo, 24 de novembro de 2013

O velho e a moça.


O rapaz está prestes a se despedir da velha, pega uma mão entre as suas e sente a frieza de seus pequenos dedos languidos e enrugados. Ela permanece sentada e em silêncio. Ele nota que ela continua a lhe olhar da mesma forma, sem desviar nem por um segundo seus tristes olhos cinza pálidos de seu rosto jovem e forte. Percebe também que suas mãos não só são geladas como tremem um pouco. Gosta dela, do modo como sempre podia lhe falar qualquer coisa, sem ser julgado e sentenciado. Gosta ainda mais de suas despedidas, do modo como todos os dias checa as suas mãos e elas são tão geladas que contrastam brutalmente com o seu próprio calor.
-Suas mãos são geladas, ainda que a temperatura esteja amena.
-Meu coração é quente, garoto. – Ela sussurra de volta com aquela voz desgastada e rouca.
-E como pode ser, você é velha, sua voz é falha, suas mãos são carcomidas e você já viveu tudo que havia para viver.
-Vivi quase nada perto do tempo de vida do mundo, vi menos ainda do que vivi, pois só enxergava o que me apetecia. Minha voz é tal como está porque não cantava os sentimentos que aqui – Tocou com a mão livre o próprio coração. – me iam. Meus dedos são frágeis assim pois fizeram tudo o que poderiam fazer por mim e nada receberam em troca. Minhas mãos são frias hoje em dia, porque meu coração se tornou quente, abarrotado de lembranças e arrependimentos. Um dia minhas mãos eram quentes como as suas são agora e meu coração era tão gelado quanto o seu.
-Ora, mas não tenho o coração gelado. – Retrucou o rapaz zangado.
Largou as mãos da velha irritado. Ela levantou, mas mal tinha um terço da altura do moço.
-Lembra-se da cotovia que enxotastes ontem?
-Cotovia?
-A moça bonita, que com todo esmero, falou que lhe amava. E que você repudiou.
-Ah. – Ele soltou um suspiro agoniado. – Ela. Como sabe sobre ela?
-Sim, ela. – A velha sorriu. – Era eu.
-Não pode ser, eu... Não brinque comigo, velhota.
Ela transformou-se bem a sua frente. Numa donzela de pele rosada e cabelos longos e sedosos, negros como o céu que os cobria. 
-Sou eu.
Ele não soube o que dizer.
-Tens mãos quentes e um coração frio, garoto. Mentes tão bem que nem mesmo a lua e as estrelas confiam em ti. Mas um dia terá um coração quente, mãos frias e entenderá.
-Eu sinto muito. – Ele disse, envergonhado.
A donzela se curvou graciosamente. – É um príncipe, todas as meninas da aldeia querem você. Cativa a todos e a todos ignora. Conhece teu próprio poder e ainda assim abusa dele. Mas um dia terá mãos frias. E esse dia irá chegar logo. Lembre-se disso. Apesar de se dizer ter centenas de anos, é apenas um pirralho mimado e egoísta. Lembre-se deste dia. Irá lamentar ter mãos quentes.
De repente ele acordou, com o barulho de um trovão. Olhou a sua volta, o apartamento vazio, a melancolia que as fotografias na estante lhe traziam, mirou as próprias mãos, enrugadas, descarnadas e já meio mortas. E completamente frias.

sábado, 9 de novembro de 2013

Carol


Carolina...
You make my heart beat fast
You're the anger in my veins
Change the world with your eyes
Try to not do your best



'cause if you do, I'll fall down
Oh gurl you're in my brain
These pinky crazy lips
That soft and shiny skin
You're makin' me sick




Carol
Without you I'm empty
Life pass through me
and the days are nothing
Ain't no happiness

sexta-feira, 8 de novembro de 2013


I did what was possible to hide my mistakes.
I've put a mask of false smile on this face,
and pretended I was like everyone else
But isn't that simple, even if you do your best

Because smiles can't hide a fucked heart

Every word, every single move
Feels like a game, which I'm losing
Not even close to the truth
Waiting, surviving, day by day
Wishing things were more easy

Smiles can't hide you from yourself
Your inner soul can't be broken
Thoughts can't be forgotten
Lies shouldn't be spoken
And them would know
How to be like that

And all the angels got lose
Demons! Everyone!
No hope. No hope.
Demons! All around us!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Luís - Continuação



Ele se acomodou na borda da sacada de seu quarto. Havia outros quartos e centenas de metros abaixo de onde ele estava. Sem nenhuma proteção, nada além daquela sacada, e ele não conseguia se importar com a altura. Havia outras coisas com que se preocupar, como a presença constante do mesmo pesadelo. "Luís..." Ouviu sua voz interior chamar. Havia uma nota de alarme, preocupação nela. E tudo o que ele conseguiu fazer foi suspirar. Essa voz constantemente o atormentava mais do que o resto.
O homem era maciço e grande como uma rocha, quase dois metros de altura, bons músculos boa pele, barba bem feita e cabelos negros com olhos esmeralda. Poderia ter a garota que quisesse. E caiu de amores. Quando menos esperava estava caindo. E mais cedo ainda, estava morto. Morto de amores.
Olhou para baixo novamente, apertou as pernas contra si e ficou olhando a poluição das luzes da cidade e os sons da mesma, contra o brilho da alvorada. Ele era um garoto crescido, pensou consigo mesmo, iria sair dessa.
"Luís..."
A preocupação de si para consigo mesmo suavizou. Apesar de não demonstrar e de quase sempre agir como se nada lhe importasse, tinha uma consciência maior e mais abrangente que a da maioria, um senso aterrorizante das consequências de seus atos que se misturou profundamente com seus instintos mais básicos, como a autopreservação. 
Isso o tornou um pouco mais duro e mais desacreditado também. Mas não foi sua culpa. Não foi sua culpa ter sido obrigado a experimentar as peripécias dos outros seres humanos tão cedo. Não foi sua culpa desenvolver medo. Afinal todos desenvolvem. Luís só teve que aprender a controlá-los e seguir em frente. Assim como todos os outros. Só que Luís sentia, sentia demais. Sentia tanto que sabia que isso seria seu fim. Um gigante de coração mole.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Ceci



Sentei numa pedra sob uma árvore de folhagem bem alta, eu não sabia qual arvore era, essa seria a especialidade de minha irmã, Cecilia, apelidada carinhosamente de Ceci. Era a terceira vez essa semana que estava ali, naquela mesma pedra, sentado. Observando a paisagem e pensando a respeito do futuro. Meu cavalo, Vortal, comia tranquilamente a grama verde e algumas folhagens rasteiras. O morro ficava mais frente, tínhamos um mar de um azul escuro e profundo mais adiante. Vortal e eu éramos as únicas criaturas vivas em quilômetros, porque estávamos no vale proibido e eu adorava a visão daquele lugar. Milhares e milhares de quilômetros de nada a não serem as árvores e a relva, de ninguém para bisbilhotar.

Muito adiante, na linha do horizonte doze fragatas balançavam contra o mar, tentando inutilmente se manterem imponentes e fortes sobre a maré. Ia ser um daqueles dias. Descansei meus cotovelos sobre as pernas e deixei minhas mãos serem acalmadas pelo calor da minha face. Um dia eu não teria que fazer isso novamente, jurei para mim mesmo, baixinho.

Vortal relinchou, sacudiu as crinas e relinchou. Era meu sinal de partida. Peguei a espada longa encostada contra uma rocha mais adiante, coloquei minha bolsa nas costas e parti, a galope no meu cavalo, de volta a vila. Ou a vida talvez.

terça-feira, 21 de maio de 2013

The world rarely stops


“ We can make the world stop”.
Os fones de ouvido ecoando, ondas reverberando dentro de sua cabeça. Algo que ia além das batidas, da voz equalizada e distorcida. Algo que significava tanto sem muito dizer. Trespassava-a como uma lança de ponta de aço. Devorando seu ser.

Tentou uma, duas, três vezes trocar a trilha sonora. Pela septuagésima vez, em vão. Era como se os versos tivessem se tornado um só com a sua alma. Grudado em baixo da pele, de tal modo que tudo nela formigava e esquentava toda vez que a musica repetia.

Como um mantra. Acalmava-lhe, trazia uma certa paz. "Tudo falso" pensou, "tudo mentira". Ainda assim, esperança estupida ou não; “We can make the world stop”.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Passion



A gente fica esperando que os outros supram nossas necessidades. Esperamos demais dos outros. E ainda ficamos achando que está certo, que não é nada demais toda essa cobrança. Até ai tudo bem, sempre existirão expectativas que darão errado. Tombos no meio do caminho. Desentendimentos. O problema real é quando não se espera nada. Juro. Não há nada pior que quando a gente está de boa com tudo do jeito que está, sem cobrança, sem apelos melancólicos o tempo todo. E ainda assim, não dá certo.

Você sabe que não errou. Que não há uma só falha de sua parte. Estava tudo bem.

Mas dai vem aquela série de dúvidas que te assaltam no meio da noite, sem aviso, sem interrupção. Arrombam seus sentimentos e se instalam ali como hospedeiras malditas que não tem mais o que fazer. E não tem mesmo. Elas não te deixam dormir ou te fazem dormir demais. Elas se alimentam das suas faltas e dos seus excessos.

Não é disso que quero falar. O que realmente me trás aqui é o fato de que o que nos prejudicam são esses poucos gestos não demonstrados, as palavras não ditas. Porra, tudo que eu queria era te ver. Ouvir seu riso ou teu choro. Qualquer coisa. Em vez disso tem essa merda vazia toda espalhada entre nós.
E tudo que você diz é que não quer mais sentir nada.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Luís.




“Já não sei mais como é despertar sem tua presença”. Ele sentou, já completamente acordado e embriagado na insônia, na beira da cama de casal. Esfregou a própria cabeça como um afago. Dormira poucas horas, não mais do que deveria, menos do que precisava. Inquieto. Essa era uma palavra que o definia muito bem.
Inquieto era a palavra que definia sua vida nos últimos meses.
Passou as mãos pelo rosto, impotente. Impotente era um verbo que ele havia aprendido aos sete anos de idade, e mesmo assim, era a primeira vez que entendia o significado literal. Não havia mais nada que ele pudesse fazer. Absolutamente.
Levantou. A calça de moletom era a única barreira contra o frio, mas ele não se importava. O frio podia entrar, era convidado. No momento seu único amigo. Ele poderia tomar conta de sua alma se quisesse. Poderia congelar seus nervos também e torná-lo a prova do calor, as lembranças e da mortalha que aquela saudade ameaçava virar.