-Lembra-se
daquela historia daquele poeta famoso que foi traído pela mulher e eles ficaram trocando cartas audaciosas e
más por um bom tempo?- Ele deslizou os cabelos dela para trás da
orelha novamente.
-Sim,
lembro sim. – Ela revirou os olhos. – Você me contou tantas vezes que sei de
cor.
-Pois
é. Foi doentio, não foi? Ele amaldiçoando-a carta após carta e ela respondendo
com injurias e acusações...
-Sim, doentio e falta do que fazer. – Ela retrucou sombria.
-Mas
não é isso que importa. O importante que aquelas cartas, são arte. Isso é tudo
que importa.
-Ah!
– Ela rolou sobre si e ficou de um jeito que pudesse encará-lo, olhos nos
olhos. – Então vale tudo em prol da arte?
-Eu
nunca disse isso. – Ele respondeu solene. – Só disse que não importa quanta dor
cause, desde que se transforme em algo maior, uma memória eterna.
-Pois
eu não acho que as coisas tenham que ser assim. – Ela bufou. – Arte tem que ser
uma coisa delicada, perfeita, não algo sórdido nascido de dor de cotovelo e
desavenças.
-Você
escreveria um poema para provar isso? – Ele sorriu.
-S-sim...
– Os olhos dela se tornaram duas frestinhas. – Espera ai...
-Está
vendo, você está sendo muito dura. Está se deixando guiar pelos seus
sentimentos... Por um falso senso de estética que não realmente faz jus as
circunstancias. – Ele suspirou. – Junte tudo isso numa série de versos e você
será um poeta perfeito.



