quarta-feira, 29 de abril de 2015

Flor de lis

Me debato como uma mosca numa teia, temerosa da aranha que se aproxima. É que Lis, não dá mais.
Eu tento seguir teus passos, caminhar na tua sombra. Não dá. Até mesmo a simples ideia de segurar tua mão, parece distante agora.
Lembra de quando nos conhecemos? Éramos ambos, você e eu, duas criaturas bobas, cheias de vergonha e estranheza. Você uma ciumenta nata e eu uma desligada de todas as coisas, exceto tu. Um tu que mudou meu mundo, para melhor ou pior é que eu não sei. Lis há tanta coisa que queria te dizer. Tanta coisa entalada na garganta. Tanta coisa que queria que soubesse. Tanta coisa que é difícil exprimir e que mesmo que o fizesse sei que não adiantaria nada.
Vê só a gente. Agora, nesse exato instante. Nunca te ocorreu que tudo isso que passamos é tão besta, tão mínimo? Provavelmente sim.
Queria passar o tempo ao seu lado. O tempo todo. Cada segundo. Queria estar lá quando se formasse, quando tivesse sua casa própria, quando comprasse o seu primeiro carro, quando precisasse de carinho, ou mesmo só de um ombro para chorar, ou quando seus cabelos ficassem todos prateados. Nenhuma dessas coisas nunca vai acontecer, Lis. Não porque eu não quero e sim porque você está presa. Presa em si mesma, presa no passado. Me lembrou aquele macaco do rei leão, quando bateu com cajado na cabeça do Simba e disse “É passado”. Doeu, o que quer que tenha acontecido contigo, doeu, sim. Mas é passado. Não deveria deixar que ele tirasse sua perspectiva de futuro.
Cada vez que me dizes que alguém te machucou, que é por isso que está tão afastada de mim e que vai lidar com isso do seu jeito, eu lembro do macaco. Cada vez que diz que tem medo, eu lembro do macaco. Cada vez que diz que eu te assusto porque te deixo vulnerável de uma maneira que sempre quis evitar, lembro do macaco. Rafiki o nome do desgraçado do macaco. RAFIKI! O mandril de bunda engraçada.
Fucking macaco.
Lembro também de vários ensinamentos budistas como: “o medo é o contrário do amor, ele paralisa e te impede de seguir com o rumo natural da sua vida”, lembro de outras coisas também, porém minha lembrança mais marcante é a do macaco. Maldito macaco. Quer dizer, um desenho, feito para pequeninos de no máximo 10 anos, é muito mais consciente sobre a vida do que você. É claro que o desenho foi feito por adultos, mas as crianças entendem, elas têm uma visão mais clara da vida, do mundo, de si mesmas. E isso me faz perguntar-me, será que o problema é realmente o passado ou você?
Talvez esteja sendo egoísta aqui, talvez esteja trazendo à tona somente a minha amargura e não esteja vendo as coisas do seu ponto de vista. Afinal, não sofri o que você sofreu, não passei por seus transtornos, não senti o que você sentiu.
Sei que é meio inútil, mas fica a pergunta: Porque seus sentimentos são mais importantes que os meus?
Já me disseram tantas coisas, que eu deveria ser gentil, paciente, que eu deveria esperar por ti. Que deveria deixar de me preocupar tanto, que deveria seguir em frente, que deveria mandar você tomar onde o sol não bate (onde as patas tomam) e ser feliz.
Mas eu gosto de você.
Gosto do seu sorriso, de não saber o que seus olhos veem quando olha para mim. Gosto de suas mãos, do seu cheiro. Do modo como você fala como um zumbi cantando – se mortos vivos cantassem... Do som da sua gargalhada. Do tom da sua pele, que nem é de um pastel bem bonito. Do seu nariz. Do jeito como seus olhos olham nos meus quando não há mais nada a ser dito.
Lis, a gente já tá nessa faz tanto tempo. Sei onde foi o começo. O fim, é que tenho medo.
Tenho medo do seu medo consumir o resto de tempo que nos resta. Tenho medo da sua covardia continuar me mantendo lá no espaço no finzinho da sua sombra, de que meus pés fiquem maiores que os seus passos. Lis eu tenho medo de seu medo de mim te tornar numa estranha.
Porque Lis, esse seu medo só vai nos levar cada vez mais longe uma da outra.
É como um abismo, cada uma de nós de um lado. Eu, boba, tentando atravessá-lo sem nenhuma ferramenta. Você, do outro, com o martelo, os pregos, a madeira, corda e toda estrutura necessária para me ajudar a atravessar. Infelizmente ambas sabemos que isso não vai acontecer, não é mesmo?
Voltando aquele dia que nos conhecemos, suas mãos nervosas enquanto segurava um papel todo amassado e lia em voz alta para toda a turma, seu nome, seu passatempo favorito, suas músicas preferidas, seus sonhos... (e a numerosa quantidade de estilos de metal que você disse e fez a turma inteira rir ou seu vestido cor de burro quando foge que era a coisa mais fofa do mundo), me pergunto agora o que tinha de verdade naquele papel, porque parece uma pessoa completamente diferente de quem você é agora. Um eu mais corajoso. Um eu distante que você enterrou no passado. 
Passado. Essa palavra nos persegue.
Queria pelo menos ter álcool enquanto escrevo isso. Uma carta.
Meus olhos doem, tô com insônia, acho que minha pressão deve estar baixa também. Acho que não tenho muito futuro. Tô numa série de enrascadas sucessivas com as pessoas, muita gente antes de você, muita gente depois. Muita gente que não dá a mínima e eu ligando muito, muita gente que se importa muito quando eu não dou a mínima. Nenhuma dessas pessoas é você.
Esse é meu problema, você. Que desaparece e quando penso que esqueci, que estou começando a seguir em frente, reaparece de um átimo, como que invocada, só para me deixar meio doida de novo. Esse você, que diz que não dá certo, que vamos ser só amigos num instante e no instante seguinte diz: não consigo ser só seu amigo. O seu eu que diz “Quero você” agora e lá na frente diz “ mas não posso” ou me dá uma desculpa esfarrapada por mensagem no WhatsApp e some o resto do dia.
Odeio você.
Eu odeio sua indecisão, odeio o modo como sempre me trata como segunda opção num momento e no outro como se fosse a única. Odeio. E não consigo odiar.
Lis não dá mais.
Lembro da última vez que nos vimos (a sós, com sua amiguinha não conta), quase 2 anos atrás e não foram necessárias palavras. Fico me perguntando como você pode ter medo daquilo. Da sinceridade, da crueza dos nossos beijos, dos seus lábios nos meus.
Como eu não sei, também não sei porque, talvez nem queira saber. Acho que no fundo, você vai se curar de seja lá o que for isso quando outra pessoa mais entusiasmada e teimosa que eu decidir que vale tudo isso, quando essa mesma pessoa lutar com unhas e garras mesmo que você a afaste, mesmo que você tente convencê-la de que o que sentem um pelo outro é errado, mesmo que minta dizendo que não a quer.
Espero que essa pessoa consiga fazer o que não fui capaz. Espero que essa pessoa consiga ou te fazer feliz ou te mandar para o inferno.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Pequena loucura.

Parte de mim deseja-te tudo
parte de mim te espera...
                            partir...
Parte de mim tem pouco remorso
parte de mim vê sem...
                              vir...
E fui, por um instante, voltei
Flagrei-me no teu ir e se despedir
Agora já me resta não ir.