segunda-feira, 9 de março de 2015

Norton e o mundo dos duendes - 2



Chegando as alamedas enlameadas e meio carcomidas de Diagoras, fui direto à escola de magos do distrito magico. Cobri-me com a capa da maga falecida; todo mundo sabia que era o único jeito de entrar naquele lugar, herdando o direito. Como assim você não sabia disso? Em que mundo você vive!? Continuando. Entrei no castelo, com pé esquerdo é claro, não queria ter azar. Já dentro, percebi que a estrutura de fora não fazia jus ao que havia dentro, era deveras maior, muito maior. Gigantesco, como se houvesse uma alteração no espaço. Enfim, você deve estar imaginando. Fiquei babando pelo lugar, pelas escadarias sem fim, pelos quadros e os livros, que tinham asas. OS LIVROS TINHAM FUCKING ASAS! E voavam como pássaros desesperados para fugir, uma revoada deles. E a trás deles havia um garoto mais ou menos da minha idade, tropeçando no próprio manto e ajeitando os óculos. E gritando é claro.
Ele esbarrou em mim de tão distraído e se levantou xingando numa língua que não me parecia estranha. A língua dos trolls.
-Cuidado com a língua. – Ameacei.
-Ah então não é um completo retardado! – Sibilou.
-Não fui eu que caminhava sem olhar para onde, duende estupido.
Ele me examinou por meio segundo e caiu numa reverencia.
-Desculpe senhor, não foi minha intenção lhe ofender.
Não entendi a mudança súbita de comportamento.
-Também não precisa se curvar.
-Claro que preciso, foi minha culpa. – A voz dele tinha um tom de medo.
-Ei, calma. Me explica o que houve?
-Os livros fugiram, quase todos! Ainda consegui trancar alguns, mas.... – Ele fez um gesto de briga para uma guria que desapareceu nas escadas, rindo. – QUANTAS VEZES TENHO QUE DIZER PARA NÃO DEIXAR A PORTA ABERTA!!!
-Hum... –Sorri. –Posso ajudar?
-Não senhor... Não. É minha incumbência em primeiro lugar. Se o grão mestre souber que eles fugiram de novo e pior, que deixei um magister me ajudar com minha bagunça. Vou limpar cocô de unicórnio para o resto da vida.
-Não é nada. – Falei.
Com um assobio fiz os livros me seguirem.
-Para onde? –Perguntei em meio ao folego, enquanto corria de uma enxurrada de livros.
-Siga-me! - Ao que ele trancou as grades da biblioteca quando eles passaram por nós. Malditos livros.
Nós rimos e eu o ajudei a levantar.
-Onde posso encontrar o grão-mestre Danovan?
-Senhor, creio que está atrasado por algumas frações de luz solar. Mestre Danovan acaba de partir para uma excursão aos reinos do leste.
Droga.
O rapaz coçou a cabeça, antes de continuar:
- Só volta em meados do próximo solstício.
-Tinha uma entrega para ele...
Tentei dar meia volta e seguir para casa, a mão do rapaz puxou minha camisa.
-Aonde o senhor vai?
-Embora?
-Não senhor. – Ele me empurrou através de varias portas.
-Ei tenho que voltar para casa! ME SOLTA!
-E perder a reunião de conselheiros e magisteres?
Fiz uma careta. Estava se tornando complicado cumprir as últimas vontades de um morto.
-Estou indisposto.
-Venha, venha. – Continuou me arrastando sem dar ouvido as minhas desculpas. – O senhor devia trocar de roupa, apesar das vestes honrosas, suas roupas de baixo são piores do que as de um camponês.
-Ei!
-Vamos tratar disso.


Chegamos a um grandioso quarto luxuoso, convenientemente preparado e com uma droga de banheira no meio. Droga.
Tentei tirar a mão dele, estava por todo lado e em todo lugar, num instante estava vestido e no outro nu, numa banheira, sendo esfolado vivo. Maldição, como odeio banhos. Obrigou-me a trocar de roupa, ceroulas de algodão em vez do farrapo de estopa que usava e um manto de linho, invés daquela camisa e calças feitas de pano velho.

Até que o quarto era bonito e não tinha serragem e nem cheiro de estrume ou o balir de uma porção de animais que te comeriam se não prestasse atenção. Até que poderia me acostumar com essa vida, pensei.

sábado, 7 de março de 2015

Sei lá

Andei escrevendo hoje, sei lá, deu inspiração, sai por ai dando vida ao papel. Achei interessante a curiosidade das pessoas, saber o que tinha ali, o que era tão importante que me fez esquecer de tudo ao meu redor, inclusive da aula. Achei mais interessante ainda como me perdi, como perdi a noção de tempo e deixei que as palavras fluíssem. Parecia que precisava disso já fazia um bom tempo, como um viciado que ficou sem o vício tempo demais. Alivio, essa é a sensação e um pouco de tristeza também, de saber que retornou a tudo que tinha pensado deixar para trás. Não que escrever seja ruim, mas é como CFA disse uma vez, escrever é vomitar, é meter mesmo o dedo na garganta, sozinho, sem ajuda. E quem é que gosta de meter a porra do dedo na garganta? Acho que ninguém. Se bem que tem gente pra tudo no mundo. Até para gostar de Milf, quem dirá, meter o dedo na garganta.

terça-feira, 3 de março de 2015

Norton e o mundo dos duendes - 1


Fui batizado de Norton quando tinha umas 100 luas, eu acho. Pelo menos era o que minha mãe dizia antes de fugir com um cavaleiro errante. Menos mal, odiava o modo como ela me tratava e o jeito que ela continuamente mantinha relações com qualquer duende ou criatura viva que prometesse alguma aventura. Vivo em Diagoras, reino dos pequenos duendes Lamuris do norte. Moro desde que nasci, num velho celeiro cheio de pulgas e carrapatos e feno, muito feno; propriedade do monsenhor Jon. Que fora patrão do pai do pai do pai do tataravô do meu pai... bem, já deu para ter uma ideia. Meu pai faleceu a 40 voltas de luas, e morreu sob a tutela do velho Jon. Que logo veio a se tornar meu patrão. O velho provavelmente me ultrapassaria também.

Um belo dia de sol, o vento roçava no meu rosto, como as delicadas mãos de uma donzela –não que eu já tenha tido uma... andei de um lado para o outro do distrito das pulgas, trocando, vendendo e comprando uma infinidade de produtos para o chefe. Voltei, apreciando o caminho como sempre fazia, os verdes prados e campinas do sul de Diagoras, assobiando uma canção qualquer sobre um velho que mata um dragão, que ninguém lembra mais quem é, até vi um negócio negro se mexendo lá longe, numa colina.

Pensei logo que era uma abominação, uma aparição, coisa das trevas mesmo sabe? Mas ouvi um gemido, uma voz feminina. Depois de alguma hesitação, decidi que aquele medo todo era bobo e que já fazia algum tempo nenhuma bruxa ou fada aparecia no vale, fui até lá. O negócio preto acaba sendo na verdade, um véu, cheio de estrelas douradas de todos os tamanhos decoradas nele e sob ele havia uma pequenina e fraca garotinha. Me senti besta. Tamanho duende, com medo de assombração. Bufei.
A garotinha me agarrou e eu quase me caguei de medo, sinhô. Ô se caguei. Ela gemeu novamente e fez um gesto pra eu me aproximar. Fiz o que foi pedido, meio com medo, meio aterrorizado.
-Pegue esta correspondência e a varinha, vá para a cidade e encontre o grão mestre...
Um suspiro e ela não estava mais neste plano.
-Grão mestre? Quem? Mulher, não disse coisa com coisa!
Mas já era tarde.
Peguei a carta e o desenho no selo de sangue se moveu, um pequeno dragão vermelho com olhos escarlates, e a tal da varinha que ela havia dito, girei-a no ar. Tente entender, só via os magos durante os desfiles e comemorações da cidade, aquilo era algo novo para mim. Parecia um galho velho, meio apodrecido e meio conservado. Comecei a brincar com ela, imitando o que os magos faziam durante as paradas e sem querer acabei disparando um raio que destruiu uma das arvores alguns metros à frente. Fiquei um pouco assustado, um pouco excitado. Tratei logo de guardar a capa da moça dentro de uma das minhas bolsas e junto com ela a varinha e a carta.
Corri para casa, deixei os lucros e encomendas do patrão e arrumei uma desculpa esfarrapada para voltar a cidade:
-Deixei sem querer uma encomenda, tenho que voltar para buscar...
-Moleque maldito, quando é bobagem você se lembra muito bem. – Tomei um safanão na cabeça. – Vá e volte logo, sabe que preciso de um banho quente.

-Sim, senhor.