Foi
até o lavabo, deixou a maleta sobre a pia e lavou o rosto, tomando tempo
suficiente para se recuperar. "Elevadores", pensou "pequenas caixas feitas de solavancos e socos no estomago".
-Luís.
– Essa voz não era interior.
Virou-se,
havia um dos outros lá. Um daqueles caras que ele não se importava, mas fingia, fingia bem demais.
-Como
vai meu chapa? – Antônio sorriu convidativo.
Os
dois se cumprimentaram depois que Antônio lavou as mãos.
-É
um dia ruim... – O amigo continuou. – A mulher está uma fera, parece que o
mundo vai desabar se não conseguirmos resultados imediatamente.
-O
que houve? Esteve aqui a noite toda?
-Sim,
era isso ou ficar aturando ligações no meio de madrugada. – Antônio resmungou. –Não
te ligaram?
Luís
ergueu o celular e fez uma careta.
-Deixei desligado.
-Oh
cara, eu não queria estar na sua pele... – Antônio de uns tapinhas de consolo
nas costas de Luís. – Ela vai querer seu pescoço.
Luís
soltou um suspiro.
Os
dois seguiram para a sessão chamada carinhosamente de “demônio” porque toda a
ala era comandada por ela, Anne. A destruidora de carreiras. Por essa mesma Anne que ele se apaixonou. O demônio em forma de mulher. A
comandante de todas as sete legiões de seu inferno particular. Nem Dante
poderia lhe dar um desfecho pior. Quando chegou a sala de reuniões, Antônio lhe
dirigiu um olhar de desculpas e foi se sentar na cadeira mais distante, o que
fez Luís o invejar mortalmente. E que deixava vaga uma única cadeira, a mais
próxima a sua chefa.
Ele
fortificou todas as suas defesas, sua assistente pegou seus pertences, menos a maleta e lhe deu um sorriso vago quando sabia que ninguém mais poderia ver
exceto Luís. Ele não retribuiu, olhava para seu arqui-inimigo e ex-amante. Queria
sentir o coração bater mais rápido e as forças faltarem para sustentar as
pernas, quem sabe um leve e breve tremor; ou a secura habitual na garganta. Nada.
Não sentiu nada, nenhuma única migalha do seu ser enfraquecida. Ou o calor
habitual. Nem mesmo frio.
Limpou
a garganta e não se sentou.
Era
sua vez de fazer escolhas, era sua vez de estar no controle. Sua vez de
desferir o golpe letal contra a criatura que aterrorizava seus sonhos e sua realidade. Apertou
a alça da maleta e sorriu triunfante.
-Eu
me demito.

0 comentários:
Postar um comentário
Deixe tudo o que quiser deixar. E leve o que precisar.