quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Luis - Final

Foi até o lavabo, deixou a maleta sobre a pia e lavou o rosto, tomando tempo suficiente para se recuperar. "Elevadores", pensou "pequenas caixas feitas de solavancos e socos no estomago".

-Luís. – Essa voz não era interior.
Virou-se, havia um dos outros lá. Um daqueles caras que ele não se importava, mas fingia, fingia bem demais.
-Como vai meu chapa? – Antônio sorriu convidativo.
Os dois se cumprimentaram depois que Antônio lavou as mãos.
-É um dia ruim... – O amigo continuou. – A mulher está uma fera, parece que o mundo vai desabar se não conseguirmos resultados imediatamente.
-O que houve? Esteve aqui a noite toda?
-Sim, era isso ou ficar aturando ligações no meio de madrugada. – Antônio resmungou. –Não te ligaram?
Luís ergueu o celular e fez uma careta.
-Deixei desligado.
-Oh cara, eu não queria estar na sua pele... – Antônio de uns tapinhas de consolo nas costas de Luís. – Ela vai querer seu pescoço.

Luís soltou um suspiro.

Os dois seguiram para a sessão chamada carinhosamente de “demônio” porque toda a ala era comandada por ela, Anne. A destruidora de carreiras. Por essa mesma Anne que ele se apaixonou. O demônio em forma de mulher. A comandante de todas as sete legiões de seu inferno particular. Nem Dante poderia lhe dar um desfecho pior. Quando chegou a sala de reuniões, Antônio lhe dirigiu um olhar de desculpas e foi se sentar na cadeira mais distante, o que fez Luís o invejar mortalmente. E que deixava vaga uma única cadeira, a mais próxima a sua chefa.

Ele fortificou todas as suas defesas, sua assistente pegou seus pertences, menos a maleta e lhe deu um sorriso vago quando sabia que ninguém mais poderia ver exceto Luís. Ele não retribuiu, olhava para seu arqui-inimigo e ex-amante. Queria sentir o coração bater mais rápido e as forças faltarem para sustentar as pernas, quem sabe um leve e breve tremor; ou a secura habitual na garganta. Nada. Não sentiu nada, nenhuma única migalha do seu ser enfraquecida. Ou o calor habitual. Nem mesmo frio.

Limpou a garganta e não se sentou.

Era sua vez de fazer escolhas, era sua vez de estar no controle. Sua vez de desferir o golpe letal contra a criatura que aterrorizava seus sonhos e sua realidade. Apertou a alça da maleta e sorriu triunfante.

-Eu me demito.

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