Chegando as alamedas enlameadas e
meio carcomidas de Diagoras, fui direto à escola de magos do distrito magico.
Cobri-me com a capa da maga falecida; todo mundo sabia que era o único jeito de
entrar naquele lugar, herdando o direito. Como assim você não sabia disso? Em
que mundo você vive!? Continuando. Entrei no castelo, com pé esquerdo é claro,
não queria ter azar. Já dentro, percebi que a estrutura de fora não fazia jus
ao que havia dentro, era deveras maior, muito maior. Gigantesco, como se
houvesse uma alteração no espaço. Enfim, você deve estar imaginando. Fiquei
babando pelo lugar, pelas escadarias sem fim, pelos quadros e os livros, que
tinham asas. OS LIVROS TINHAM FUCKING ASAS! E voavam como pássaros desesperados
para fugir, uma revoada deles. E a trás deles havia um garoto mais ou menos da
minha idade, tropeçando no próprio manto e ajeitando os óculos. E gritando é
claro.
Ele esbarrou em mim de tão
distraído e se levantou xingando numa língua que não me parecia estranha. A
língua dos trolls.
-Cuidado com a língua. – Ameacei.
-Ah então não é um completo
retardado! – Sibilou.
-Não fui eu que caminhava sem
olhar para onde, duende estupido.
Ele me examinou por meio segundo
e caiu numa reverencia.
-Desculpe senhor, não foi minha
intenção lhe ofender.
Não entendi a mudança súbita de
comportamento.
-Também não precisa se curvar.
-Claro que preciso, foi minha
culpa. – A voz dele tinha um tom de medo.
-Ei, calma. Me explica o que
houve?
-Os livros fugiram, quase todos!
Ainda consegui trancar alguns, mas.... – Ele fez um gesto de briga para uma
guria que desapareceu nas escadas, rindo. – QUANTAS VEZES TENHO QUE DIZER PARA
NÃO DEIXAR A PORTA ABERTA!!!
-Hum... –Sorri. –Posso ajudar?
-Não senhor... Não. É minha
incumbência em primeiro lugar. Se o grão mestre souber que eles fugiram de novo
e pior, que deixei um magister me ajudar com minha bagunça. Vou limpar cocô de
unicórnio para o resto da vida.
-Não é nada. – Falei.
Com um assobio fiz os livros me
seguirem.
-Para onde? –Perguntei em meio ao
folego, enquanto corria de uma enxurrada de livros.
-Siga-me! - Ao que ele trancou as
grades da biblioteca quando eles passaram por nós. Malditos livros.
Nós rimos e eu o ajudei a
levantar.
-Onde posso encontrar o
grão-mestre Danovan?
-Senhor, creio que está atrasado
por algumas frações de luz solar. Mestre Danovan acaba de partir para uma
excursão aos reinos do leste.
Droga.
O rapaz coçou a cabeça, antes de
continuar:
- Só volta em meados do próximo
solstício.
-Tinha uma entrega para ele...
Tentei dar meia volta e seguir
para casa, a mão do rapaz puxou minha camisa.
-Aonde o senhor vai?
-Embora?
-Não senhor. – Ele me empurrou
através de varias portas.
-Ei tenho que voltar para casa!
ME SOLTA!
-E perder a reunião de
conselheiros e magisteres?
Fiz uma careta. Estava se
tornando complicado cumprir as últimas vontades de um morto.
-Estou indisposto.
-Venha, venha. – Continuou me
arrastando sem dar ouvido as minhas desculpas. – O senhor devia trocar de
roupa, apesar das vestes honrosas, suas roupas de baixo são piores do que as de
um camponês.
-Ei!
-Vamos tratar disso.
Chegamos a um grandioso quarto
luxuoso, convenientemente preparado e com uma droga de banheira no meio. Droga.
Tentei tirar a mão dele, estava
por todo lado e em todo lugar, num instante estava vestido e no outro nu, numa
banheira, sendo esfolado vivo. Maldição, como odeio banhos. Obrigou-me a trocar
de roupa, ceroulas de algodão em vez do farrapo de estopa que usava e um manto
de linho, invés daquela camisa e calças feitas de pano velho.
Até que o quarto era bonito e não
tinha serragem e nem cheiro de estrume ou o balir de uma porção de animais que
te comeriam se não prestasse atenção. Até que poderia me acostumar com essa
vida, pensei.


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