quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Luís - Continuação



Ele se acomodou na borda da sacada de seu quarto. Havia outros quartos e centenas de metros abaixo de onde ele estava. Sem nenhuma proteção, nada além daquela sacada, e ele não conseguia se importar com a altura. Havia outras coisas com que se preocupar, como a presença constante do mesmo pesadelo. "Luís..." Ouviu sua voz interior chamar. Havia uma nota de alarme, preocupação nela. E tudo o que ele conseguiu fazer foi suspirar. Essa voz constantemente o atormentava mais do que o resto.
O homem era maciço e grande como uma rocha, quase dois metros de altura, bons músculos boa pele, barba bem feita e cabelos negros com olhos esmeralda. Poderia ter a garota que quisesse. E caiu de amores. Quando menos esperava estava caindo. E mais cedo ainda, estava morto. Morto de amores.
Olhou para baixo novamente, apertou as pernas contra si e ficou olhando a poluição das luzes da cidade e os sons da mesma, contra o brilho da alvorada. Ele era um garoto crescido, pensou consigo mesmo, iria sair dessa.
"Luís..."
A preocupação de si para consigo mesmo suavizou. Apesar de não demonstrar e de quase sempre agir como se nada lhe importasse, tinha uma consciência maior e mais abrangente que a da maioria, um senso aterrorizante das consequências de seus atos que se misturou profundamente com seus instintos mais básicos, como a autopreservação. 
Isso o tornou um pouco mais duro e mais desacreditado também. Mas não foi sua culpa. Não foi sua culpa ter sido obrigado a experimentar as peripécias dos outros seres humanos tão cedo. Não foi sua culpa desenvolver medo. Afinal todos desenvolvem. Luís só teve que aprender a controlá-los e seguir em frente. Assim como todos os outros. Só que Luís sentia, sentia demais. Sentia tanto que sabia que isso seria seu fim. Um gigante de coração mole.