O rapaz está prestes a se despedir da velha, pega uma mão
entre as suas e sente a frieza de seus pequenos dedos languidos e enrugados. Ela permanece sentada e em silêncio. Ele nota que ela continua a lhe olhar da mesma forma, sem desviar nem por um
segundo seus tristes olhos cinza pálidos de seu rosto jovem e forte. Percebe
também que suas mãos não só são geladas como tremem um pouco. Gosta dela, do
modo como sempre podia lhe falar qualquer coisa, sem ser julgado e sentenciado.
Gosta ainda mais de suas despedidas, do modo como todos os dias checa as suas
mãos e elas são tão geladas que contrastam brutalmente com o seu próprio calor.
-Suas mãos são geladas, ainda que a temperatura esteja
amena.
-Meu coração é quente, garoto. – Ela sussurra de volta com
aquela voz desgastada e rouca.
-E como pode ser, você é velha, sua voz é falha, suas mãos são
carcomidas e você já viveu tudo que havia para viver.
-Vivi quase nada perto do tempo de vida do mundo, vi menos
ainda do que vivi, pois só enxergava o que me apetecia. Minha voz é tal como
está porque não cantava os sentimentos que aqui – Tocou com a mão livre o próprio
coração. – me iam. Meus dedos são frágeis assim pois fizeram tudo o que
poderiam fazer por mim e nada receberam em troca. Minhas mãos são frias hoje em dia, porque meu coração
se tornou quente, abarrotado de lembranças e arrependimentos. Um dia minhas
mãos eram quentes como as suas são agora e meu coração era tão gelado quanto o
seu.
-Ora, mas não tenho o coração gelado. – Retrucou o rapaz
zangado.
Largou as mãos da velha irritado. Ela levantou, mas mal tinha um terço da altura do moço.
-Lembra-se da cotovia que enxotastes ontem?
-Cotovia?
-A moça bonita, que com todo esmero, falou que lhe amava. E
que você repudiou.
-Ah. – Ele soltou um suspiro agoniado. – Ela. Como sabe
sobre ela?
-Sim, ela. – A velha sorriu. – Era eu.
-Não pode ser, eu... Não brinque comigo, velhota.
Ela transformou-se bem a sua frente. Numa donzela de pele
rosada e cabelos longos e sedosos, negros como o céu que os cobria.
-Sou eu.
Ele não soube o que dizer.
-Tens mãos quentes e um coração frio, garoto. Mentes tão bem
que nem mesmo a lua e as estrelas confiam em ti. Mas um dia terá um coração quente,
mãos frias e entenderá.
-Eu sinto muito. – Ele disse, envergonhado.
A donzela se curvou graciosamente. – É um príncipe, todas as
meninas da aldeia querem você. Cativa a todos e a todos ignora. Conhece teu
próprio poder e ainda assim abusa dele. Mas um dia terá mãos frias. E esse dia irá chegar logo. Lembre-se disso. Apesar de se dizer ter centenas de anos, é apenas um pirralho mimado e egoísta. Lembre-se deste dia. Irá lamentar ter mãos quentes.De repente ele acordou, com o barulho de um trovão. Olhou a sua volta, o apartamento vazio, a melancolia que as fotografias na estante lhe traziam, mirou as próprias mãos, enrugadas, descarnadas e já meio mortas. E completamente frias.

