Andou
duas quadras, observando como a cidade se curvava em sombras sob o sol. A
temperatura ainda era baixa apesar de tudo. Ajudou uma senhora abarrotada de
sacolas de compras a sair de uma loja mantendo a porta aberta enquanto a velha
agradecia exasperada. Ele odiava o modo como às pessoas recebiam a gentileza,
como se fosse um estigma e não uma dádiva.
Deixou
isso para trás, continuou até chegar à estação de metrô, entrou no primeiro
vagão que iria para o bairro nobre onde trabalhava. Odiava a sensação de que a
cidade o engolia enquanto ele estava ali embaixo, a sensação esmagadora de que
estava dentro de um monstro enorme que a qualquer hora poderia se sacudir e
tudo estaria acabado. Apertava a mão agarrada à maleta, tal como se ela fosse
sua espada, afrouxava o colarinho e rezava em silêncio.
Luís,
o bravo guerreiro. Sua vozinha repetia como um mantra.
E
logo ele via a luz novamente e seus nervos relaxavam para serem congelados pela
baixa temperatura outra vez. O frio estava pior e mesmo assim ele se recusou a
vestir o capote, já que estaria um forno naquele inferno de trabalho. Ele
aguentaria o frio. O que ele não aguentaria seria o calor.
Aquele
calor agonizante que o sorriso poderia lhe trazer, chamas que queimariam sua
pele e pinicariam sua garganta quando a visse. Passou pela segurança e entrou
no elevador, aquela sem duvida era a garganta do inferno. Por onde todo o mal
fluía, por onde toda a dor era transportada.
Apertou
ainda mais a alça da maleta e sorriu para as pessoas ao seu redor, dentro
daquela saliva de aço e quando fora finalmente cuspido, como num flerte
demoníaco olhou para o contador de andares e sorriu diabólico. Vencedor.

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