sábado, 20 de dezembro de 2014

A porta



Queria ir, morri de vontade, mas mesmo assim, não fui. Ela estava lá, me esperando. Sorridente. Seus olhos, duas opalas distintas e brilhantes. Não havia motivos para dar meia volta, mesmo assim o fiz.
-Porque? – Ela perguntou. Nenhuma maldade na voz, apenas curiosidade.
Virei para lhe dar um pequeno vislumbre da minha decepção. As opalas, já não brilharam tanto.
-Fiz algo?
-Não sei.  Mas deixe de pensar assim, a vida não tem motivos ou consequências como todo mundo parece que adora acreditar. As coisas simplesmente acontecem.
-De alguma forma sei que você quer vir.
-Quero. Adoraria ir.
-Então porque não vem?
-Porque iria? – Fechei os olhos por um breve segundo.
-Seu mundo ai, essa coisa cinzenta e monstruosa, cheia de crueldade; para esse mundo tanto faz se você está nele ou não. Venha comigo.
-Tem razão, o mundo não me quer. Mas porque o deixaria? Quem me garante que no momento que atravessar esta porta, o seu mundo não se torne tão cinza e negligente quanto o meu?
-Eu garanto.
-Com que direito? Foi você quem criou esse mundo? Quem o moldou? Quem deu vida as suas leis e a sua essência? – Suspirei.
-Vivo nele, sei como funciona.
-Se vive nele é criatura dele e não o contrário. Assim como ele, você também pode mudar. Sendo assim, não pode garantir que o mundo não vai mudar, porque você mesma pode mudar e nem se dar conta.
-Me magoa dizendo isso.
-É para o seu próprio bem.
-É mesmo? Porque me parece egoísta.
-Egoísta?
-Sim... De todas as coisas, esperava medo, não egoísmo de você.
-Porque diz isso?
-Porque não quer passar por esta porta apenas porque sente que se o fizer irá se machucar.
-Pelo contrário.
-Como é?
-Isso mesmo. Não passo por essa porta porque se o fizer, não existem garantias de que você ficará bem.
-Mentira.
-Pense o que quiser.
-Está sendo egoísta.
-Mesmo? Acha que me importo com suas mudanças? Me importo é com as minhas.
-Tem medo de virar algo pior do que já é?
-Tenho medo é de me tornar algo tão bom que já nem consiga estar contigo.
Ficou sem palavras, deixei-nos em silencio enquanto ela ponderava. A cada minuto que passava, sua feição ficava cada vez mais aflita.
-Bom e mau, bem e mal, nada disso existe. – Falei por fim. – Não existem coisas assim, em nenhum mundo.
-Você também disse que não existem motivos e nem consequências.
-Se tirar os rótulos e ver que tudo não passam de conclusões aleatórias elaboradas por acidentes aleatórios, que é exatamente o que são as coisas da vida... Vai ver que estou certa. Poderia não ser eu aqui, poderia ser um outro espermatozoide... As decisões desse esperma poderiam ser totalmente diferentes das minhas, talvez ele ou ela nunca tivesse te conhecido, nem se interessado por uma porta que ninguém mais via... Talvez essa mesma pessoa não fosse retardada mental, subjugada por uma cama...
-Falando assim... Me deixa triste.
-A verdade é triste.
-Minta para mim.
-Não dá.
-Porque?
-Porque? Você não vê?
-Não.
-Isso tudo, é um milagre. O simples fato de estarmos conversando em si, de termos nos conhecido... é um grande e misterioso milagre.
Voltou a sorrir, depois um pensamento cruzou-lhe a mente e o sorriso esvaneceu.
-A porta vai fechar.
-Eu sei.
-Venha comigo.
-E se as coisas mudarem?
-Lidaremos com os acidentes aleatórios depois que eles acontecerem.
-E se eu mudar?
-Nunca vou deixar que isso aconteça.
-Promete?
-Não.
-Não?
-Não posso prometer coisas que estão fora do meu controle.
Dito isto, ponderei. Ela por fim havia sido muito mais esperta que eu de um jeito estupido. Sorri. Pegou minha mão e entrelaçou seus pequenos dedinhos nos meus.
-Não tenha medo, o mundo do outro lado é colorido. Cheio de coisas inestimáveis. Cheio de amor.
-Não ligo para o amor.
-E quem liga?!
-Não sei, ainda não me apresentaram alguém que se importasse.
-No seu mundo, ninguém liga para o amor. No nosso, todo mundo se importa.
-Não consigo definir se isso é bom ou ruim.
-Quem foi que disse que não existem bem ou mal?!
-Me pegou nessa.
-Não existe bem ou mal no seu mundo, no meu, eles são bem definidos.
-É mesmo?
-Sim. Um dragão mata uma pessoa? Bom. Uma pessoa mata um dragão? Ruim, muito ruim, anos de azar.
-As definições do seu mundo são intrigantes.
-Melhor do que nada.
-De fato.
-Mas e se eu mudar?
-Se for para ruim, não tem problema, nós vamos trabalhar isso.
-E se eu ficar bem?
-Então a gente vê.
-A gente vê? Essa é sua resposta?
-Bom, não tenho resposta para tudo, muito menos para a sua esquizofrenia. Então... Vamos passar pela porta?
Tomei um pulmão inteiro de respiração, caminhei ao seu lado. Ela abriu a porta.
-Antes de ir. Me diga. Algum dia, vou acordar?
-Minha resposta afeta sua decisão?
-Não.
-Então, não. Passando esta porta, nunca mais vai acordar.
-É uma viagem sem volta...
-Precisamente.
-Vou me arrepender?
-Nunca.
-É uma terra que vale a pena ser conhecida?
-Cada palmo dela.
-Vamos nos divertir?
-Como os meninos perdidos daquele livro... Como era mesmo o nome?
-Peter Pan.
-Sim, isso mesmo. Iremos nos divertir para sempre.
-E quanto ao amor, não falou muito dele, como ele é no seu mundo?

-O amor pode esperar, querida.

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