Queria ir,
morri de vontade, mas mesmo assim, não fui. Ela estava lá, me esperando.
Sorridente. Seus olhos, duas opalas distintas e brilhantes. Não havia motivos
para dar meia volta, mesmo assim o fiz.
Virei para lhe
dar um pequeno vislumbre da minha decepção. As opalas, já não brilharam tanto.
-Fiz algo?
-Não sei. Mas deixe de pensar assim, a vida não tem
motivos ou consequências como todo mundo parece que adora acreditar. As coisas
simplesmente acontecem.
-De alguma
forma sei que você quer vir.
-Quero.
Adoraria ir.
-Então porque
não vem?
-Porque iria? –
Fechei os olhos por um breve segundo.
-Seu mundo ai,
essa coisa cinzenta e monstruosa, cheia de crueldade; para esse mundo tanto faz
se você está nele ou não. Venha comigo.
-Tem razão, o
mundo não me quer. Mas porque o deixaria? Quem me garante que no momento que
atravessar esta porta, o seu mundo não se torne tão cinza e negligente quanto o
meu?
-Eu garanto.
-Com que
direito? Foi você quem criou esse mundo? Quem o moldou? Quem deu vida as suas
leis e a sua essência? – Suspirei.
-Vivo nele, sei
como funciona.
-Se vive nele é
criatura dele e não o contrário. Assim como ele, você também pode mudar. Sendo assim, não pode garantir que o mundo não vai mudar,
porque você mesma pode mudar e nem se dar conta.
-Me magoa
dizendo isso.
-É para o seu
próprio bem.
-É mesmo?
Porque me parece egoísta.
-Egoísta?
-Sim... De
todas as coisas, esperava medo, não egoísmo de você.
-Porque diz
isso?
-Porque não
quer passar por esta porta apenas porque sente que se o fizer irá se machucar.
-Pelo
contrário.
-Como é?
-Isso mesmo.
Não passo por essa porta porque se o fizer, não existem garantias de que você
ficará bem.
-Mentira.
-Pense o que
quiser.
-Está sendo
egoísta.
-Mesmo? Acha
que me importo com suas mudanças? Me importo é com as minhas.
-Tem medo de
virar algo pior do que já é?
-Tenho medo é
de me tornar algo tão bom que já nem consiga estar contigo.
Ficou sem
palavras, deixei-nos em silencio enquanto ela ponderava. A cada minuto que
passava, sua feição ficava cada vez mais aflita.
-Bom e mau, bem
e mal, nada disso existe. – Falei por fim. – Não existem coisas assim, em
nenhum mundo.
-Você também disse
que não existem motivos e nem consequências.
-Se tirar os
rótulos e ver que tudo não passam de conclusões aleatórias elaboradas por
acidentes aleatórios, que é exatamente o que são as coisas da vida... Vai ver
que estou certa. Poderia não ser eu aqui, poderia ser um outro espermatozoide...
As decisões desse esperma poderiam ser totalmente diferentes das minhas, talvez
ele ou ela nunca tivesse te conhecido, nem se interessado por uma porta que
ninguém mais via... Talvez essa mesma pessoa não fosse retardada mental,
subjugada por uma cama...
-Falando
assim... Me deixa triste.
-A verdade é
triste.
-Minta para
mim.
-Não dá.
-Porque?
-Porque? Você
não vê?
-Não.
-Isso tudo, é
um milagre. O simples fato de estarmos conversando em si, de termos nos
conhecido... é um grande e misterioso milagre.
Voltou a
sorrir, depois um pensamento cruzou-lhe a mente e o sorriso esvaneceu.
-A porta vai
fechar.
-Eu sei.
-Venha comigo.
-E se as coisas
mudarem?
-Lidaremos com
os acidentes aleatórios depois que eles acontecerem.
-E se eu mudar?
-Nunca vou
deixar que isso aconteça.
-Promete?
-Não.
-Não?
-Não posso
prometer coisas que estão fora do meu controle.
Dito isto,
ponderei. Ela por fim havia sido muito mais esperta que eu de um jeito estupido.
Sorri. Pegou minha mão e entrelaçou seus pequenos dedinhos nos meus.
-Não tenha
medo, o mundo do outro lado é colorido. Cheio de coisas inestimáveis. Cheio de
amor.
-Não ligo para
o amor.
-E quem liga?!
-Não sei, ainda
não me apresentaram alguém que se importasse.
-No seu mundo,
ninguém liga para o amor. No nosso, todo mundo se importa.
-Não consigo
definir se isso é bom ou ruim.
-Quem foi que
disse que não existem bem ou mal?!
-Me pegou
nessa.
-Não existe bem
ou mal no seu mundo, no meu, eles são bem definidos.
-É mesmo?
-Sim. Um dragão
mata uma pessoa? Bom. Uma pessoa mata um dragão? Ruim, muito ruim, anos de
azar.
-As definições
do seu mundo são intrigantes.
-Melhor do que
nada.
-De fato.
-Mas e se eu
mudar?
-Se for para
ruim, não tem problema, nós vamos trabalhar isso.
-E se eu ficar
bem?
-Então a gente
vê.
-A gente vê?
Essa é sua resposta?
-Bom, não tenho
resposta para tudo, muito menos para a sua esquizofrenia. Então... Vamos passar
pela porta?
Tomei um pulmão
inteiro de respiração, caminhei ao seu lado. Ela abriu a porta.
-Antes de ir.
Me diga. Algum dia, vou acordar?
-Minha resposta
afeta sua decisão?
-Não.
-Então, não.
Passando esta porta, nunca mais vai acordar.
-É uma viagem
sem volta...
-Precisamente.
-Vou me
arrepender?
-Nunca.
-É uma terra
que vale a pena ser conhecida?
-Cada palmo
dela.
-Vamos nos
divertir?
-Como os
meninos perdidos daquele livro... Como era mesmo o nome?
-Peter Pan.
-Sim, isso
mesmo. Iremos nos divertir para sempre.
-E quanto ao
amor, não falou muito dele, como ele é no seu mundo?
-O amor pode
esperar, querida.

0 comentários:
Postar um comentário
Deixe tudo o que quiser deixar. E leve o que precisar.