quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Luís - Continuação



Ele se acomodou na borda da sacada de seu quarto. Havia outros quartos e centenas de metros abaixo de onde ele estava. Sem nenhuma proteção, nada além daquela sacada, e ele não conseguia se importar com a altura. Havia outras coisas com que se preocupar, como a presença constante do mesmo pesadelo. "Luís..." Ouviu sua voz interior chamar. Havia uma nota de alarme, preocupação nela. E tudo o que ele conseguiu fazer foi suspirar. Essa voz constantemente o atormentava mais do que o resto.
O homem era maciço e grande como uma rocha, quase dois metros de altura, bons músculos boa pele, barba bem feita e cabelos negros com olhos esmeralda. Poderia ter a garota que quisesse. E caiu de amores. Quando menos esperava estava caindo. E mais cedo ainda, estava morto. Morto de amores.
Olhou para baixo novamente, apertou as pernas contra si e ficou olhando a poluição das luzes da cidade e os sons da mesma, contra o brilho da alvorada. Ele era um garoto crescido, pensou consigo mesmo, iria sair dessa.
"Luís..."
A preocupação de si para consigo mesmo suavizou. Apesar de não demonstrar e de quase sempre agir como se nada lhe importasse, tinha uma consciência maior e mais abrangente que a da maioria, um senso aterrorizante das consequências de seus atos que se misturou profundamente com seus instintos mais básicos, como a autopreservação. 
Isso o tornou um pouco mais duro e mais desacreditado também. Mas não foi sua culpa. Não foi sua culpa ter sido obrigado a experimentar as peripécias dos outros seres humanos tão cedo. Não foi sua culpa desenvolver medo. Afinal todos desenvolvem. Luís só teve que aprender a controlá-los e seguir em frente. Assim como todos os outros. Só que Luís sentia, sentia demais. Sentia tanto que sabia que isso seria seu fim. Um gigante de coração mole.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Ceci



Sentei numa pedra sob uma árvore de folhagem bem alta, eu não sabia qual arvore era, essa seria a especialidade de minha irmã, Cecilia, apelidada carinhosamente de Ceci. Era a terceira vez essa semana que estava ali, naquela mesma pedra, sentado. Observando a paisagem e pensando a respeito do futuro. Meu cavalo, Vortal, comia tranquilamente a grama verde e algumas folhagens rasteiras. O morro ficava mais frente, tínhamos um mar de um azul escuro e profundo mais adiante. Vortal e eu éramos as únicas criaturas vivas em quilômetros, porque estávamos no vale proibido e eu adorava a visão daquele lugar. Milhares e milhares de quilômetros de nada a não serem as árvores e a relva, de ninguém para bisbilhotar.

Muito adiante, na linha do horizonte doze fragatas balançavam contra o mar, tentando inutilmente se manterem imponentes e fortes sobre a maré. Ia ser um daqueles dias. Descansei meus cotovelos sobre as pernas e deixei minhas mãos serem acalmadas pelo calor da minha face. Um dia eu não teria que fazer isso novamente, jurei para mim mesmo, baixinho.

Vortal relinchou, sacudiu as crinas e relinchou. Era meu sinal de partida. Peguei a espada longa encostada contra uma rocha mais adiante, coloquei minha bolsa nas costas e parti, a galope no meu cavalo, de volta a vila. Ou a vida talvez.

terça-feira, 21 de maio de 2013

The world rarely stops


“ We can make the world stop”.
Os fones de ouvido ecoando, ondas reverberando dentro de sua cabeça. Algo que ia além das batidas, da voz equalizada e distorcida. Algo que significava tanto sem muito dizer. Trespassava-a como uma lança de ponta de aço. Devorando seu ser.

Tentou uma, duas, três vezes trocar a trilha sonora. Pela septuagésima vez, em vão. Era como se os versos tivessem se tornado um só com a sua alma. Grudado em baixo da pele, de tal modo que tudo nela formigava e esquentava toda vez que a musica repetia.

Como um mantra. Acalmava-lhe, trazia uma certa paz. "Tudo falso" pensou, "tudo mentira". Ainda assim, esperança estupida ou não; “We can make the world stop”.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Passion



A gente fica esperando que os outros supram nossas necessidades. Esperamos demais dos outros. E ainda ficamos achando que está certo, que não é nada demais toda essa cobrança. Até ai tudo bem, sempre existirão expectativas que darão errado. Tombos no meio do caminho. Desentendimentos. O problema real é quando não se espera nada. Juro. Não há nada pior que quando a gente está de boa com tudo do jeito que está, sem cobrança, sem apelos melancólicos o tempo todo. E ainda assim, não dá certo.

Você sabe que não errou. Que não há uma só falha de sua parte. Estava tudo bem.

Mas dai vem aquela série de dúvidas que te assaltam no meio da noite, sem aviso, sem interrupção. Arrombam seus sentimentos e se instalam ali como hospedeiras malditas que não tem mais o que fazer. E não tem mesmo. Elas não te deixam dormir ou te fazem dormir demais. Elas se alimentam das suas faltas e dos seus excessos.

Não é disso que quero falar. O que realmente me trás aqui é o fato de que o que nos prejudicam são esses poucos gestos não demonstrados, as palavras não ditas. Porra, tudo que eu queria era te ver. Ouvir seu riso ou teu choro. Qualquer coisa. Em vez disso tem essa merda vazia toda espalhada entre nós.
E tudo que você diz é que não quer mais sentir nada.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Luís.




“Já não sei mais como é despertar sem tua presença”. Ele sentou, já completamente acordado e embriagado na insônia, na beira da cama de casal. Esfregou a própria cabeça como um afago. Dormira poucas horas, não mais do que deveria, menos do que precisava. Inquieto. Essa era uma palavra que o definia muito bem.
Inquieto era a palavra que definia sua vida nos últimos meses.
Passou as mãos pelo rosto, impotente. Impotente era um verbo que ele havia aprendido aos sete anos de idade, e mesmo assim, era a primeira vez que entendia o significado literal. Não havia mais nada que ele pudesse fazer. Absolutamente.
Levantou. A calça de moletom era a única barreira contra o frio, mas ele não se importava. O frio podia entrar, era convidado. No momento seu único amigo. Ele poderia tomar conta de sua alma se quisesse. Poderia congelar seus nervos também e torná-lo a prova do calor, as lembranças e da mortalha que aquela saudade ameaçava virar.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Calhorda

Então me abandona. Me abandona e não me persegue depois, fingindo que não sente minha falta, mas estando sempre em todos os lugares que vou. Fingindo que não me ama, que não me quer. Então me maltrata, me liga no meio da noite interferindo nos meus sonhos, nas minhas escapadas malucas com desconhecidos -estes últimos que arrumo numa tentativa boba de te esquecer. Vai, pode ir. Mude o caminho de outras, mude a vida de outras, só para depois tentar encontrar nelas um bocadinho de mim ou de culpa. Vai lá, só tenha certeza do que está fazendo. Pode ir. Mas não me liga depois, sem eira e nem beira, num ataque de tristeza tão violenta que mal consegue respirar e chorar e dizer palavras tão vãs e estupidas que me encolhem a alma ou que fazem aquele frio na barriga se apoderar de mim. Você está me matando lentamente e não da forma certa. Está me matando dentro de mim. 

domingo, 2 de dezembro de 2012

L'amour


Sabe quando a gente vê aquele romance? Sabe exatamente como é ter um daqueles papeis? (risos) Olhar nos olhos do outro, ver todas aquelas cores bonitas. E parece que o mundo lá fora, fica longe, não te alcança. Porque tem aquela pessoa ali, na sua frente. Ele ou ela, não importa, faz o mundo parar.
A apreensão, a vontade de que dê certo te faz prender o fôlego. E as mãos suam e o coração bate que nem um tambor de crioula. “Deus, parece que isso não vai acabar nunca”, você pensa, até o primeiro beijo chegar, que é quando você volta a respirar.
O que me deixa sem fôlego também é a trilha sonora. Porque toda vez que eu ouvir aquela maldita musica vou lembrar daquele momento, daquele personagem, daquele filme, daquele olhar. Um beijo ou dois. E vez ou outra acabo odiando a música.
E fica naquela expectativa absurda para saber como aquele romance vai se desenvolver, prende o fôlego de novo, dessa vez porque os mocinhos não se entendem e o vilão, que tem diferentes facetas, pode ser um casamento em ruínas como pano de fundo, o preconceito e a ignorância, pode ser um reles passado sujo ou um alguém do passado, talvez alguém do presente mesmo, acaba atrapalhando tudo.
Os mocinhos tem que lutar, tem que se defender com unhas e dentes, seus raios lasers e facas são a persistência, a super força é o amor e por ai vai... É, prendo o fôlego assistindo essas merdas. Mas é porque tenho que viver um romance de vez em quando também.